novembro 20, 2025

Compartimentação do litoral fluminense
Compartimentação do litoral fluminense

Baseada nas descrições de Dieter Muehe e Enise Valentini em O Litoral do Estado do Rio de Janeiro, uma Caracterização Físico-Ambiental, esta postagem busca apresentar, com citações dos autores citados e mapas, os principais trechos que compõem o litoral do estado, evidenciando suas particularidades físicas e os elementos naturais que moldam cada setor.

Os compartimentos costeiros começam no extremo norte, entre a foz do rio Itabapoana e a planície costeira do Paraíba do Sul. Em seguida, a planície do Paraíba do Sul ocupa a região ao redor de sua desembocadura, estendendo-se até as proximidades de Macaé. O trecho entre Macaé e o cabo Búzios engloba também Rio das Ostras e o rio São João. Do cabo Búzios até Cabo Frio situa-se um setor sem grandes desembocaduras fluviais.

Esse setor é sucedido pela Região dos Lagos, entre Arraial do Cabo e Niterói. Mais ao sul, aparece a Baía de Guanabara, entre Niterói e o Rio de Janeiro, seguida pela planície e lagunas de Jacarepaguá, que inclui a zona sul e sudoeste carioca. Próxima dali encontra-se a Baía de Sepetiba, atrás da restinga da Marambaia, e, no extremo sudoeste do estado, a Baía da Ilha Grande, entre Mangaratiba/Angra dos Reis e Paraty.

Litoral Oriental

Compartimento do rio Itabapoana (rio Itabapoana - rio Paraíba do Sul)

(...) é caracterizada por um litoral de falésias esculpidas nos sedimentos do Grupo Barreiras (...).

Compartimento planície costeira de rio Paraíba do Sul (rio Paraíba do Sul - rio Macaé)

A planície do rio Paraíba do Sul (...) é constituída, na face oceânica, por dois conjuntos de cristas de praia. O do flanco norte é formado por uma seqüência de idade holocênica, associada à posição da atual desembocadura. O outro, no flanco sul, é de idade pleistocênica, se estende até as proximidades de Macaé, e é precedido por um estreito cordão litorâneo holocênico (...). À retaguarda das planícies de cristas de praia se estende uma ampla área de terraços fluviais e zonas pantanosas. Estas últimas se localizam na porção mais interna da planície e no entorno da Lagoa Feia, remanescente (...), da fase transgressiva, cujo máximo ocorreu há 5.100 anos A.P.
(...) [há] um banco submarino, defronte ao cabo São Tomé, (banco de São Tomé), e em outro banco, oblíquo à costa, orientado de sudeste para noroeste em direção à Barra do Furado (...).
A configuração da linha de costa na forma de um delta e a presença de um banco submarino defronte ao cabo São Tomé, expõe a linha de praia a diferentes direções de incidência das ondas e, conseqüentemente, a diferentes direções e intensidades do transporte litorâneo (...).
(...) A descarga líquida do Paraíba do Sul, nas proximidades de sua desembocadura, varia sazonalmente entre 300 e 1.650 m3s-1, com os meses de inverno correspondendo à descarga mínima e os de verão à descarga máxima (...).
Problemas erosivos significativos têm ocorrido na praia de Atafona, junto à desembocadura fluvial.

Compartimento do rio Macaé ao embaiamento do rio São João (rio Macaé - cabo Búzios)

Este compartimento (...) recebe as águas do rio das Ostras, do São João e do Una. Destes, o Macaé e o São João são os únicos de alguma expressão (...).
A linha de costa entre Macaé e Rio das Ostras é constituído por longos arcos de praia interrompidos por afloramentos do embasamento cristalino. Entre as praias as mais expressivas são as de Imbetiba, junto ao porto em Macaé, desfigurada pela construção de um conjunto de espigões que não conseguiram reter os sedimentos, a Campista e Cavaleiros, a sul da cidade, sendo a última a mais procurada para o lazer, e Mar do Norte, inserida entre dois promontórios rochosos, já no Município de Rio das Ostras.
À retaguarda da praia dos Cavaleiros se localiza a laguna de Imbetiba que se encontra impactada pelo lançamento de efluentes domésticos e cuja renovação das águas somente ocorre por ocasião da abertura artificial do canal de maré. Como em praticamente todas as lagunas do litoral do estado esses canais de maré não se mantêm abertos naturalmente havendo necessidade de um monitoramento das principais lagunas para a definição de um plano de abertura da barra que considere o conjunto de aspectos associados, como a manutenção de um nível da água abaixo de uma altura crítica para os moradores do entorno lagunar, a renovação da fauna e os níveis de eutrofização e contaminação das águas.

Compartimento do embaiamento cabo Búzios-cabo Frio (cabo Búzios - cabo Frio)

Este compartimento se caracteriza pela ausência de desembocaduras fluviais, constituindo o canal de Itajuru a única via de troca de água entre o oceano e o continente, na caso a ligação com a laguna de Araruama (...). Não obstante a plataforma continental interna é recoberta, em grande parte, por uma estreita faixa de lama que se estende nas proximidades da isóbata de 20 m, entre Macaé e o embaiamento Búzios-Cabo Frio (...).

Litoral Sul

Compartimento Região dos Lagos (cabo Frio - Piratininga)

Nenhuma abertura natural permite que embarcações encontrem áreas abrigadas neste trecho da costa (...).
Um conjunto de lagunas, cuja presença motivou a designação de Região dos Lagos, a partir da lagoa de Maricá para o leste do compartimento considerado, se desenvolveu à retaguarda dos cordões litorâneos. As maiores, à retaguarda do cordão litorâneo mais interiorizado, como a de Araruama, Jacarepiá, Saquarema, Jaconé, Guarapina, Padre, o sistema Maricá-Guarapina, compreendendo as lagunas de Maricá, Barra, Guaratiba, Padre e Guarapina e as lagunas de Itaipu e Piratininga. As menores, comprimidas entre o reverso do cordão frontal e a frente do cordão mais interiorizado, completamente isoladas de qualquer aporte fluvial, como a Pernambuca e a Vermelha.

Compartimento Baía de Guanabara (Piratininga - Pedro do Arpoador)

Constituindo uma área rebaixada ao longo de um eixo de falha que rompeu o maciço costeiro, a depressão assim formada abriu uma ligação entre o oceano e o graben da Guanabara e serviu de convergência para o escoamento da rede de drenagem fluvial oriunda da escarpa da serra do Mar e do reverso do maciço costeiro. A baía de Guanabara, tal como se apresenta hoje (...), é resultado do afogamento, pela transgressão holocênica, dos baixos cursos desta rede de drenagem (...).
Com uma superfície de 384 km2 da qual 56 km2 ocupada por ilhas, a baía apresenta uma superfície de água da ordem de 328 km2 (...). A bacia de drenagem voltada para a baía abrange uma área de 4.080 km2, é composta por 32 sub-bacias, sendo drenada por 45 rios e canais.
(...) A taxa media mensal de aporte de água doce foi calculada (...) em 100 m3s-1, incluindo 25 m3s-1 de descarga doméstica oriunda do abastecimento de água domiciliar oriunda de bombeamento do rio Paraíba do Sul, com valores variando entre um mínimo de 33 m3s-1 em julho e um máximo de 186 m3s-1 em janeiro (...). É interessante observar que, nos meses de junho, julho e agosto, mais de 50% do aporte de água doce resulta de água proveniente do rio Paraíba do Sul.
O aporte de sedimentos, e seu incremento em função de desmatamentos e retificação de canais fluviais, tem levado, de uma maneira geral, a um aumento substancial da taxa média de assoreamento (...).
(...) O tempo médio de renovação de 50% da água da baía é de apenas de 11,4 dias (...), o que explica a qualidade relativamente boa da água na metade distal da baía.

Compartimento de Jacarepaguá (Pedra do Arpoador - Pedra de Guaratiba)

Este último sub-compartimento, limitado a leste pelo maciço da Tijuca a noroeste pelo Maciço da Pedra Branca e a oeste pela serra de Guaratiba (...) é caracterizado por uma ampla planície costeira, com cerca de 130 km2 de área (...), represada por um sistema de duplos cordões litorâneos, com cerca de 18 km de extensão (...).
(...) O sistema lagunar interligado de Jacarepaguá se encontra embutido na planície costeira, à retaguarda do cordão mais antigo, de idade provavelmente pleistocênica, apresentando um formato alongado direcionado para a extremidade leste da planície onde se comunica com o mar através de uma canal de maré estabilizado por um guia corrente. (...) os diferentes corpos de água, que formam o sistema lagunar apresentam baixa profundidade média, com 80% da área com menos de 2 m de profundidade (...).
O principal rio, que drena para o complexo lagunar, é o arroio Fundo, com uma área da bacia de 55 km2 (...), seguido pelo rio do Anil (27,98 km2), arroio Pavuna (22,27 km2), rio Cachoeira (19,75 km2) o rio das Pedras (11,62 km2), e o rio Paraminho (10,62 km2), todos com suas cabeceiras nas encostas que circundam a baixada (...). Na extremidade oeste a planície é cortada por um sistema de drenagem canalizado pelo canal de Sernambetiba que deságua no canto oeste da praia de Sernambetiba, pequeno arco praial separado da praia da Barra da Tijuca pelo tômbolo denominado de Pontal de Sernambetiba.
(...) mais da metade do aporte de sedimentos se deve ao rio Fundo, sendo desprezível a contribuição dos rios Cachoeira, Pedra e Paraminhos, o mesmo se podendo dizer dos rios que se dirigem para o canal de Sernambetiba (...).
À tendência de intensificação dos processos de colmatagem das lagunas se somam os elevados níveis de poluentes oriundos das descargas de esgotos domésticos e de efluentes industriais, gerando um aumento de eutrofização e de contaminação, resultando em aumento da freqüência de mortandade de peixes nas lagunas, cujo escoamento em direção ao mar, através do canal da Barra, é condicionado pela oscilação da maré.

Compartimento Baía de Sepetiba (Pedra de Guaratiba - Ilha da Marambaia)

Localizada à retaguarda da restinga da Marambaia a baía de Sepetiba compreende uma área de 300 km2. Em geral a baía é de águas pouco profundas, apresentando cerca de metade de sua área profundidades inferiores a 6 m. As menores profundidade e baixas declividades se encontram no setor leste (...). O contato com o oceano se faz, principalmente, pelo setor oeste, através de dois canais, com profundidades máximas variando entre 31 e 24 m. (...). Uma outra ligação, mais restrita, é o canal de maré da Barra de Guaratiba, na extremidade leste da restinga, em cuja retaguarda se desenvolve amplo manguezal, parte da reserva biológica e arqueológica de Guaratiba.
(...) Em termos gerais a circulação na baía de Sepetiba é dominado pela maré (...). A amplitude média da maré de sizígia é de 110 cm e de 30 cm na maré de quadratura.
As águas que penetram na baía são frias e densas, provenientes da plataforma continental. (...).
(...) O complexo estuarino de Sepetiba possui (...) elevada quantidade de matéria orgânica em suspensão, sais minerais dissolvidos e grande concentração de algas planctônicas. São águas tróficas, propícias a servir de criadouro a dezenas de espécies marinhas e que tornaram a baía uma das principais zonas pesqueiras do Estado do Rio de Janeiro, criadouro ideal para várias espécies de moluscos, crustáceos e peixes dos quais dependem várias comunidades de pescadores de características distintas. Atualmente há franco conflito entre grupos de pescadores artesanais (pesca de cercada, linha e rede) e os que empregam técnicas modernas de captura (pesca de arrasto e mais recentemente cerco de cardumes de espécies pelágicas com utilização de traineiras). Tal incremento de técnicas de pesca, associadas a um aumento de descarga de poluentes orgânicos e industriais são os responsáveis pela registrada diminuição da produtividade e diversidade biológica da baía.

Compartimento Baía da ilha Grande (ilha da Marambaia - Ponta de Juatinga)

(...) [pode ser dividida] em três corpos distintos: a Área Leste, localizada a leste da Ilha Grande até à entrada da baía de Sepetiba, a Área Oeste, correspondendo ao embaiamento a oeste da Ilha Grande, e o Canal Central, depressão estreita, alongada e profunda, localizado entre a Ilha Grande e o continente (...).
Tanto o corpo leste quanto o oeste tem a batimetria controlada por canais, provavelmente remanescentes do período interglacial, quando o nível do mar se encontrava muito distante da costa atual, e o atual fundo marinho da baía se encontrava emerso. Na Área Oeste as menores profundidades, inferiores a 10 m, ocorrem nas pronunciadas reentrâncias do litoral oeste (enseada de Parati) e norte (baía da Ribeira). As profundidades aumentam rapidamente em direção ao eixo do embaiamento, formando um canal cuja profundidade máxima, em torno de 40 m, é atingido nas proximidades de sua desembocadura.

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