A recente “megaoperação policial” realizada no Complexo do Alemão e da Penha, em outubro de 2025, reacendeu o debate sobre a segurança pública no Brasil. Enquanto a cidade paralisava, a narrativa pública se dividia em campos aparentemente inconciliáveis: de um lado, a retórica da “guerra civil”, usada pela direita; de outro, o grito de “genocídio da juventude negra”, ecoado pela esquerda. No entanto, ambos os lados falham em compreender o problema.
Quem defende o termo “guerra civil” legitima a “megaoperação policial” como uma entrada para matar, como se o território fosse um campo de batalha. Já quem fala em “genocídio da juventude negra” corre o risco de racializar um problema que é, antes de tudo, de classe. A vítima primordial tanto do Estado quanto do tráfico é o pobre. A “megaoperação policial” e a humilhação cotidiana imposta pelo tráfico não escolhem a cor com tanta precisão quanto escolhem o CEP. Quem chama de “guerra” e quem chama de “genocídio” deveria dar as mãos - pois ambos deixam de ver o óbvio: estamos em um estado de exceção permanente contra os pobres.
Essa lógica do extermínio encontra um paradoxo gritante naqueles que, se dizendo cristãos, aplaudem a “megaoperação policial”. O mesmo indivíduo que compartilha versículos sobre sua aliança com Deus celebra a notícia de dezenas de mortos - muitos deles, é certo, autores de crimes graves. Mas onde está o mandamento “amai os vossos inimigos” (Mateus 5:44) nesse cenário? O cristianismo prega o perdão e a redenção, não o fuzilamento sumário. Amar o inimigo, neste contexto, é defender que um criminoso deve ser preso, julgado e, se condenado, ter a chance (mesmo que remota) de se regenerar. A morte na favela é a negação do perdão; é a crença de que certas vidas são irremediavelmente descartáveis. Nada tem a ver com o Cristo que jantou com pecadores e perdoou a mulher adúltera.
Há, ainda, uma falácia em considerar a “megaoperação policial” como um “sucesso”. O verdadeiro sucesso se mediria pela queda duradoura da violência, pela desarticulação financeira do crime e pela melhoria das condições de vida naquele território e além - e nada disso foi alcançado. O braço econômico do tráfico, seus investimentos no mercado formal e seus elos políticos permanecem intocados. A polícia mata o soldado raso, mas o general e seu contador continuam operando. E o que é pior: os “postos” deixados pelos mortos são ocupados, em questão de horas, por uma nova leva de pessoas igualmente descartáveis. Nesse ritmo, precisaríamos de uma “megaoperação policial” por mês. Um ciclo sanguinário e infinito que apenas faz girar a engrenagem do crime e da morte.
Logo, a chacina de outubro de 2025 no Complexo do Alemão e da Penha - esse é o seu nome - não é, portanto, uma solução: é a barbárie. Aplaudida por uma sociedade que enxerga guerra e genocídio onde há miséria, “abençoada” por uma fé que trai seus próprios princípios e celebrada como vitória por quem se recusa a admitir a falência da forma como tratamos a segurança pública, ela apenas confirma o que o Brasil teima em não entender - que não há paz possível enquanto a vida do pobre continuar sendo tratada como descartável.
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