março 31, 2026

Clima árido no território brasileiro
Clima árido no território brasileiro

Durante muito tempo, soubemos que o Brasil não possuía áreas classificadas como áridas. Nas principais sistematizações do clima que nacionalmente utilizamos para compreender o território brasileiro, como as classificações de Arthur Strahler, Edmon Nimer e Wladimir Köppen (veja aqui), o território nacional era caracterizado, em seu ponto mais extremo, pela presença do clima semiárido, no Sertão nordestino.

Essa compreensão começou a ser tensionada recentemente. Em novembro de 2023, o CEMADEN divulgou um resultado importante: ao analisar o período de 1990 a 2020, identificou-se, pela primeira vez, o surgimento de uma área com características climáticas áridas no país, localizada no norte do estado da Bahia.

A repercussão dessa descoberta foi amplificada pela imprensa. Em janeiro de 2024, o G1 publicou uma reportagem detalhando a extensão dessa área, estimada em cerca de 5.763 km². No entanto, ao se trabalhar com o georreferenciamento da imagem disponibilizada pela própria reportagem, chegou-se a um valor aproximado de 6.839 km². Ainda que haja essa diferença, relacionada à baixa resolução do material cartográfico divulgado, foi possível delimitar com relativa precisão a localização dessa mancha árida. Ela abrange municípios como Abaré, Chorrochó e Macururé, além de trechos de Curaçá, Juazeiro e Rodelas. A análise espacial também sugere que, no caso de Juazeiro, pode haver uma porção não contígua à área principal, o que levanta questões interessantes sobre a fragmentação espacial desse novo domínio climático.

Para compreender a relevância dessa classificação, é fundamental distinguir o conceito de aridez de fenômenos mais conhecidos, como a seca. De acordo com a própria reportagem do G1, a aridez corresponde a uma condição permanente de deficiência hídrica. Trata-se, portanto, de uma característica climática estável, e não de um evento episódico. A seca, por sua vez, é temporária e ocorre quando há uma redução anormal das chuvas em determinado período. Essa distinção é essencial, pois indica que a área identificada não está apenas passando por um momento crítico, mas apresenta um padrão climático consolidado de escassez hídrica.

O reconhecimento dessa área baseia-se no Índice de Aridez. Esse indicador mede a relação entre a precipitação e a perda de água por evaporação e transpiração. Em termos simplificados, quanto maior for a diferença entre a água que entra no sistema (chuvas) e a que sai (evapotranspiração), maior será o grau de aridez. Assim, regiões áridas são aquelas em que a perda de água supera sistematicamente sua reposição, inviabilizando a manutenção de umidade suficiente no solo e na vegetação.

Diante disso, a identificação de um clima árido no Brasil gera um sinal de alerta. Ela sugere que áreas tradicionalmente classificadas como semiáridas podem estar passando por um processo de intensificação da seca estrutural, o que tem implicações diretas para a agricultura e para a própria ocupação humana. Além de termos que rever as classificações climáticas, esse fenômeno impõe a necessidade de repensar políticas públicas e estratégias de adaptação, sobretudo em regiões historicamente vulneráveis do Nordeste brasileiro.

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