maio 02, 2026

As lagoas do Parque Prazeres, Campos dos Goytacazes (RJ)
As lagoas do Parque Prazeres, Campos dos Goytacazes (RJ)

No contexto urbano de Guarus, o Parque Prazeres abriga dois importantes corpos d’água: a lagoa Maria do Pilar e a lagoa do Taquaruçu. Embora a Prefeitura não disponibilize um shapefile oficial de bairros, evidências cartográficas e imagens de satélite indicam que ambas ultrapassam os limites do Parque Prazeres; ainda assim, é nele que se fazem largamente presentes.

Um aspecto fundamental para a compreensão dessas lagoas é sua integração a um sistema hídrico mais amplo. Segundo o mapa de Lagoas e Canais da Região Norte Fluminense, elaborado por Leidiana Alonso Alves e outros autores, essas lagoas fazem parte do Sistema Lagoa do Campelo, que integra, entre outros corpos d’água, as lagoas do Vigário, Maria do Pilar, Taquaruçu, Brejo Grande e Campelo.

Enquanto a conexão da lagoa do Taquaruçu ao Brejo Grande é feita pelo canal do Vigário, as ligações entre a lagoa do Vigário e a Maria do Pilar, bem como entre esta última e a do Taquaruçu, são realizadas por canais sem nome.

Quanto à primeira conexão citada, é válido apontar que, na altura da Avenida José Carlos Pereira Pinto, essa ligação era claramente observável no Centro de Educação Ambiental da Guarda Municipal. Registros do Google Street View de março de 2015 mostram o então “valão”, como é popularmente chamado pela imprensa. Já em maio de 2021, a imagem revela que o canal já se encontrava murado, ocultando sua existência imediata na avenida. Na altura da Rua Pastor José Marcos Nunes, uma manilha interliga os trechos seccionados pela via.

Do ponto de vista geomorfológico, as duas lagoas ocupam unidades distintas, conforme o shapefile do IBGE (portal BDiA). A lagoa Maria do Pilar situa-se quase inteiramente em Depósitos Sedimentares Quaternários, inserida nas Planícies do rio Paraíba do Sul. Já a lagoa do Taquaruçu predomina nas Bacias e Coberturas Sedimentares Fanerozóicas, correspondendo aos Tabuleiros Costeiros do Brasil Centro-Oriental. Apenas nas proximidades do canal do Vigário, já fora da área provável do Parque Prazeres e mais próximo da Usina São João, ocorre o contato com a unidade de planície denominada Delta do Paraíba do Sul.

Do ponto de vista biológico, a lagoa Maria do Pilar tem chamado a atenção da imprensa local pela presença de jacarés de papo amarelo. Notícias de 2016 (aqui), 2017 (aqui) e 2025 (aqui) relatam capturas do animal nas proximidades do Hospital Geral de Guarus e em um “valão” – que acreditamos ser justamente o canal sem nome que liga a lagoa do Vigário à Maria do Pilar. A recorrência dessas aparições sugere que, apesar da degradação, o sistema aquático ainda mantém condições para a sobrevivência da espécie.

A ocupação espacial da lagoa Maria do Pilar é bastante significativa. Estende-se por trás do Hospital Geral de Guarus e do Shopping Plaza (no bairro Parque Barão do Rio Branco), alcança áreas do programa Morar Feliz e faz fronteira com o Residencial da Lapa I e II. Também confronta a Estação Experimental da PESAGRO-Rio e o pequeno bairro Parque São Jorge. Uma grande porção, contudo, permanece dentro do Parque Prazeres.

Segundo Dayana Rodrigues Coutinho Vilaça, essa lagoa também é conhecida como Brejo dos Prazeres – uma denominação que, por si só, já revela sua transformação ecológica. Os indícios de ocupação do bairro Parque Prazeres desde a década de 1960 indicam que o lançamento de esgoto in natura nesse corpo d’água ocorre há décadas, sendo, muito provavelmente, o principal fator de sua degradação ambiental.

Nesse contexto, a recente limpeza de um trecho da lagoa Maria do Pilar, dentro do bairro citado, não autoriza grande otimismo. Nada indica que tenha havido, por parte do poder público, a exigência de medidas estruturais por parte da concessionária de saneamento básico, especialmente no que se refere à coleta e ao tratamento do esgoto que ainda pode estar sendo despejado na lagoa. Sem essa intervenção, qualquer recuperação tende a ser apenas temporária.

Já a lagoa do Taquaruçu, situada após a última rua do Parque Prazeres (Gladstone Melo), por não se inserir inteiramente em áreas urbanas - funcionando, ao lado de uma extensa área verde, como zona de transição entre o Parque Prazeres e o Santa Rosa -, tende a sofrer um pouco menos de pressão antrópica. Inserida em um tabuleiro, a lagoa apresenta maior profundidade. Ainda assim, mais da metade de seu espelho d’água encontra-se recoberta por vegetação, a ponto de, no Google Maps e no OpenStreetMap, trechos da lagoa serem identificados como brejos. A área em que o espelho d’água permanece mais visível localiza-se justamente na faixa de contato entre o Parque Prazeres e Santa Rosa.

Sua ligação com a lagoa Maria do Pilar foi alvo de limpeza em 2024. Infelizmente, esse canal atualmente encontra-se assoreado, comprometendo a troca hídrica entre as duas lagoas.

Acompanhando as fotos da limpeza, também registramos belas imagens da lagoa do Taquaruçu no mesmo dia, evidenciando uma paisagem ainda expressiva, em contraste com a situação crítica da vizinha Maria do Pilar.

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