A antiga Enseada de Inhaúma, que continha ou era também conhecida como Estuário de Manguinhos, foi um dos mais importantes ecossistemas da porção ocidental da Baía de Guanabara. Durante séculos, constituiu uma ampla reentrância marinha. Ao longo do século XX, sucessivos aterros eliminaram praticamente toda a sua superfície, transformando-a em área continental.
A partir de shapefile do Serviço Geológico Brasileiro (SGB), conseguimos cartografar uma área de 4,4 km² dessa antiga enseada, que compreende partes dos bairros do Caju, Maré e Manguinhos. Essa área está atualmente inclusa na sub-bacia hidrográfica do Canal do Cunha e do Rio Ramos. Deve-se ressaltar, contudo, que as sucessivas obras de aterro e construção de canais alteraram profundamente a configuração original das drenagens.
No mapa abaixo, a Enseada de Inhaúma está contida no extenso Depósito Tecnogênico (aterro sobre corpos d’água) demarcado pelo shapefile do SGB:
Uma reconstrução incrivelmente detalhada da paisagem original foi apresentada pelo geógrafo Elmo da Silva Amador. Segundo o autor:
"A Enseada de Inhaúma era um extenso braço de mar, largo, limitado à direita pela ponta do Caju e a Ilha dos Ferreiros, e à esquerda pela Gamboa do Viegas e pelo arquipélago das ilhas do Fundão. Para o interior possuía um estuário que se estendia por vários quilômetros (5 km no maior eixo) até atingir os Morros do Pedregulho, da Fazenda, do Botelho, do Frota e muitos outros arrasados no processo histórico. Ultrapassava as atuais linhas da Estrada de Ferro da Leopoldina e Central do Brasil e a Av. Suburbana, banhava ainda áreas como a Praça das Nações (Bonsucesso), Triagem, Benfica, Maria das Graças, Méier e Inhaúma. O estuário era drenado pelos Rios Inhaúma, Jacaré, Faria-Timbó, Imburicica, Benfica e outros menores, que apresentavam um extenso percurso meândrico dominado por manguezais.
Os manguezais do Estuário de Manguinhos ocupavam uma superfície total de 4 km².
Junto à foz dos rios havia um conjunto de ilhas sedimentares, cobertas por mangues, as Ilhas Maruins." (Amador, 2013, p. 17). "O Estuário de Manguinhos, ou de Inhaúma, um dos mais extensos da Guanabara, encontrado pelos colonizadores, com seus 12 km² de superfície, era até a década de 1920 um ambiente natural, orlado de manguezais, canais meândricos de marés, praias e ilhas paradisíacas. Era frequentado por uma riquíssima fauna de aves que incluía guarás, colhereiros, biguás e irerês. O conjunto do ecossistema assegurava uma elevada produtividade biológica, sendo enormes os cardumes de camarões, sardinhas, corvinas, xaréus e outros peixes, que eram avidamente procurados pela Colônia de Pescadores do Caju, a primeira do Brasil, que se localizou na Ponta do Caju desde o final do século XIX (...)." (Amador, 2013, p. 154).
Com auxílio de mapas antigos, é possível demarcar mais claramente a superfície anteriormente ocupada pela Enseada de Inhaúma ou Estuário de Manguinhos:
| Baía de Guanabara: ocupação histórica e avalição ambiental (capa) 1500 (2013) Elmo da Silva Amador |
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| Mappa do Districto Federal : [cidade do Rio de Janeiro] 1911 Olavo Freire |
Carta do Districto Federal 1922 Serviço Geográfico Militar |
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| Mapa físico do Distrito Federal, 1949 1949 Autor desconhecido |
[Planta da cidade do Rio de Janeiro] 1990 Instituto de Planejamento Municipal (Rio de Janeiro, RJ) |
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A imagem abaixo, provavelmente da década de 1930, retrata a antiga área da enseada/estuário:
Fonte: Holland, S. H.. '1930.Disponível em: Brasiliana Fotográfica.
Embora o espelho d'água tenha desaparecido, sua influência permanece registrada na topografia baixa da região:
Dessa forma, a antiga Enseada de Inhaúma constitui um importante exemplo de como grandes intervenções urbanas podem destruir profundamente um ecossistema costeiro.





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